27 de setembro de 2016

De como o príncipe está a sentir o cerco a apertar-se

Depois de uma semana laboriosa e de um fim-de-semana longo, cheio de eventos e ajuntamentos, de onde era esperado retorno muito proveitoso que invertesse o derribamento para infortúnio, o príncipe iniciou a semanada subindo pesarosamente a longa escadaria até ao trono. Tinha passado uma noite mal dormida, com pequenos apagamentos intervalados por sonhos sobressaltados com assombrações de fantasmas furibundos – confessou-o na abertura da reunião com o seu escudeiro.
O príncipe entrou no gabinete, deixou a porta aberta, e sentou-se no cadeirão. Sentia-se cansado: corpo dorido e cabeça pesarosa. Chamou o fiel escudeiro:
- Pança, vinde cá…
O escudeiro entrou e perguntou: - o que deseja Vossa Mercê?
- Senta-te, Pança, precisamos de falar, e eu de te ouvir. Sabes bem que te considero um fiel escudeiro, sempre pronto para todo o serviço. Tens-me ajudado nas muitas pendências em que me tenho metido, reconheço-o, por isso tenho sido generoso contigo… Mas, como sabes, as coisas estão complicadas, e por mais que me esforce para ser o que não sou, não se descomplicam. Dize-me, tu que te mexes bem no meio do povo, o que preciso de fazer mais, para ter povo.
- Quem sou eu para dar conselhos a Sua Alteza. É verdade que Vossa Mercê mudou muito nos últimos tempos, e tem usado todo o cardápio de afabilidades: sorrisos, simpatias e beijos; e abusado de esmolas, prebendas, feitorias, … Mas concordo com Vossa Mercê: a mesinha não está a resultar…
- Interrompeu o príncipe, ansioso: - dize-me Pança, por que não está a resultar, se eu me tenho esforçado tanto; e não sabes tu o quanto me tem custado, que isto de forçar o corpo, custa; mas contrariar a nossa natureza, violenta.
- Pois o problema pode estar aí mesmo; mais no curador do que na doença. A doença é muito ruim…
Atalhou logo o príncipe: - De que doença me estás a falar, Pança?
- Calma, calma, Senhor. Eu vou tentar explicar; e faltando-me doutas palavras, pego num exemplo conhecido, que se aplica bem ao (seu) caso. A sua maleza é uma espécie de tuberculose. E ocorre aqui como no caso do tuberculoso: no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não foi conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura. Sua Alteza estará, com certeza, a aplicar a receita correcta; mas começou tarde, e talvez não vá a tempo da cura.
- E dizeis-me só agora, isso, Pança? O que dizem os meus ministros? Também eles, pensam como tu?
- Desculpe-me Alteza, mas entre príncipe e ministros não se deve escudeiro meter.
- Mas dize-me, dize-me, Pança? – inquiriu o príncipe marfado - sabes bem que te ordenei que os vigiasses.
- Quer mesmo saber a verdade, Senhor? Quer?
- Fala, Pança…Evita-me este penar.
- Acho que estão mais descrentes do que eu. Dizem-no à boca cheia pelos corredores, e lá por fora.
- Mas sabes bem, Pança; que estamos todos no mesmo barco, e se formos ao fundo…
- Eu não… Eu regresso aonde saí…
- Enganas-te, Pança. Ajuda-me a salvar-me, que te salvas também a ti.
- O que está feito, feito está; agora paciência e fé em Deus, e na Sr.ª do Cardal (minha querida Senhora). Da minha lavra, não sei o que se pode usar mais. Mas já agora, porque não se mexe Sua Alteza, junto de quem controla as forças divinas, onde se movimenta muito bem. Eu não o faço porque a minha condição não mo permite, mas continuo a assistir à missinha e faço as minhas orações, regularmente.
- Pobre terra - exclamou o príncipe - que nem tem com quem se possa tomar conselho nas incertezas, alívio nos queixumes, nem remédio na desgraça.
                                                                                                                                                                                                          Miguel Saavedra      

26 de setembro de 2016

Acto de contrição





Nada como agradecer e nomear a todos em geral e a cada um em particular. Foi há três dias, como poderia ter sido no século XIX.

O arranque da campanha

                                Foto publicada por António Sales
Falta exactamente um ano para as eleições autárquicas, e como não está marcado o dia, a única certeza que temos é que será a última edição organizada por este executivo de Diogo Mateus. Por isso mesmo, o arranque da campanha eleitoral aconteceu no evento que ontem terminou - e que voltou a ser um sucesso, se o medirmos em gente, movimento, e desta vez até em animação musical, bastante melhorada. 
Já se sabe que o PSD não precisa de fazer grande coisa para se fazer notar, pois que a presença do partido, organizado, nas festas e romarias, é uma certeza tão grande como o Natal em Dezembro. Também já percebemos que o CDS está apostado em ocupar o espaço da oposição, com uma pequena nuance: comporta-se como se fosse poder, trazendo figuras diversas e contribuindo para o êxito das feiras. Afinal, a herança de Portas ainda está para durar...
Ora acontece que foi o PS quem levou às tasquinhas esse arranque da campanha eleitoral. Se dúvidas houvesse, bastou a febre de sábado à noite, com mais de 50 militantes, quadros locais e distritais do partido, uma espécie de Perdoa-me dos nossos dias com a presença de António Sales e o regresso de Adelino Mendes (O registo de dinâmica continuará hoje à noite, com um plenário distrital em...Pombal). Observando ao pormenor, destacam-se ali os três vereadores do PS e a sua mudança de estilo na oposição. Já todos reparámos que perderam as peneiras e já votam contra, quando se justifica, como apontam o dedo e abandonaram o registo unanimista e morno que caracterizava Marlene Matias, Aníbal Cardona e Jorge Claro. É este quem está a dar a cara à estratégia.
Temos candidato.

22 de setembro de 2016

Academia, mas pouco


Os nossos sociais-democratas promoveram nova sessão de homenagem a Mota Pinto. E se, há dois anos, apelidaram a iniciativa de tertúlia, desta vez optaram pela pomposa designação de Academia. Nada contra; cada um escolhe o nome que mais gosta. O que me entristece, mais uma vez, é a opção por limitar os intervenientes à estrita esfera partidária. Será que não há ninguém fora do partido e da família que consiga dizer duas palavritas elogiosas a propósito de tão insigne pombalense?

21 de setembro de 2016

O Orçamento Participativo

A ideia é uma boa ideia: financiar as propostas do cidadão comum, aquele que não lidera uma colectividade nem fez carreira partidária autárquica. Mas a história volátil do Orçamento Participativo em Pombal faz-se mais de oportunismo do que de oportunidades para a sociedade civil. São as colectividades - já abonadas pela Câmara, como em poucos concelhos do país - que têm levado vantagem. De maneira que ver ali no meio do rol deste ano um projecto como este - apresentado por pais de crianças autistas - é uma boa razão para levar o caso a sério e votarmos. A lista está disponível aqui, e a discussão pública decorre esta quinta-feira, 22, pelas 21 horas, no Teatro-Cine de Pombal.

19 de setembro de 2016

O exemplo de Ansião, outra vez

                                                   foto retirada da página do Facebook do PSD/Pombal

O presidente da Câmara de Ansião anunciou estes dias que não se recandidata ao cargo. Fê-lo nas páginas de um jornal local, e embora não seja muito claro a explicar as razões deste abandono prematuro, dá um sinal que devia servir pelo menos para reflexão, a muitos correlegionários. 
Lembro-me de Rui Rocha enquanto adjunto de Fernando Marques, enquanto líder da JSD, e mais tarde enquanto vereador. É discreto, ponderado, e tem uma dose de coragem que aprecio nos políticos, o que faz dele o homem certo na comissão política distrital do PSD, sem folclore.
Não sei se vai ser administrador de alguma empresa, se quer ter a experiência (legítima) da Assembleia da República, mas sei que no vizinho Ansião deixa uma marca, à conta daquele equilíbrio entre o rapaz da terra que faz por ela tudo o que pode, e o político que escapa à propaganda, sabendo que isso da Jota já foi há 20 anos e por isso há um tempo para tudo...
A verdade é que é mais um quadro do PSD em condições de ocupar qualquer lugar fora daqui. E isso não é bom para D. Diogo nem para Pedro Pimpão, em primeiro plano, nem para todo o séquito, em segundo. Mas é bom para o eleitorado.

15 de setembro de 2016

Quando o feitiço se volta contra o feiticeiro

O feitiço é a nova e grandiosa Extensão de Saúde da Guia: um presente envenenado que o príncipe quis ofertar ao Estado e aos súbditos do oeste. Engano seu: o Estado não o agradeceu e a maioria dos súbditos rejeitam-no. Assim, o feitiço virou-se contra o feiticeiro. O príncipe foi, mais uma vez, pouco astuto: fez o que não lhe competia fazer e arrisca-se a ficar com o odioso da coisa, a ter mais prejuízo que proveito, à porta das eleições
Tanto assim é, que o empreendimento está concluído há muito tempo, mas ninguém lhe quer pegar. Até já foi ocupado clandestinamente, mas, estranhamente, ainda não foi inaugurado. Há muito que os senhores doutores ocuparam os gabinetes do novo empreendimento, e por lá ficaram sem reparo. Recentemente os funcionários administrativos, por não suportarem o efeito de estufa da envidraçada sala de recepção, nos tórridos dias de Agosto, seguiram-lhe o exemplo: pegaram nos computadores e mobiliário e mudaram-se para as novas instalações. Falha deles, que logo chegou à tutela que ordenou o retorno imediato às velhas instalações (nesta terra não são permitidas veleidades à arraia-miúda). Só que, decisões despropositadas e injustas são de implementação difícil; e, apesar de a temperatura ter amainado, os funcionários continuam nas novas instalações.
O príncipe revela muita indecisão; mas, nestas coisas, costuma dizer-se que o perigo está na tardança. E o pior está para vir!

13 de setembro de 2016

Obras benditas que se tornam malditas

As obras necessárias são sempre bem-vindas, se vierem no tempo certo. Não é o caso das obras na Etap e Rua Fernando Pessoa / Escola Marquês de Pombal. Este tipo de obras, dentro das escolas ou na sua periferia, deveriam decorrer no período de férias.

É verdade que a capacidade de planeamento da CMP nunca foi muita, mas parece ter-se agravado. Fazer obras volumosas nas escolas ou na sua periferia durante o arranque do ano lectivo revela uma enorme falta de bom senso, porque colocam em risco a segurança das crianças, pais e transeuntes.